domingo, 17 de julho de 2016

Sobre mães, meninos e partidas

A cena se repete pela segunda vez. Os três "mosqueteiros" novamente se uniram na dor de cada um para levar o féretro até a morada final. Silenciosos, solidários, unos.
Eram meninos quando se reconheceram e tornaram inseparáveis. Tinham seis ou sete anos. Foram heróis, bandidos, aventureiros, cientistas, desenhistas, costureiros, cozinheiros, criadores de hámsters, de cães, recolheram filhotes de gatos abandonados nas ruas e os trouxeram para casa, temeram fantasmas, odiaram a escola, jogaram rpg, acamparam, enfrentaram as turbulências da adolescência - ora juntos, ora cada um por si -,  tomaram diferentes rumos profissionais, trocaram de cidades, tiveram namoradas, outros amigos que ficaram, outros que passaram. Mas entre eles, a cada reencontro, o tempo pára. Nestes momentos, para mim, é como voltar atrás, celeremente, e vê-los como meninos aos 30 anos. Meninos que precisam enterrar suas mães. Meninos com o afeto ceifado pela lógica cruel do viver e ver morrer os que lhes são caros. Meninos atordoados pela perda nunca esperada, embora sabida.
De repente, uma cena se desenrola, aleatória, em minha mente. Os vejo homens adultos, já maduros, mais uma vez carregando uma mãe para a sua morada final. Duas já foram. A próxima, será a minha vez.



sexta-feira, 20 de maio de 2016

Mas ele precisa.

Chuva e frio em Curitiba. Nada de novo numa cidade que tem o apelido de Chuvitiba.

Mas antes de chover, eu e Pandora fomos fazer a nossa caminhada rotineira. Aproveitamos para ir conhecer uma nova creche para cães aqui perto de casa. A gente já tem o relacionamento com uma aqui, mas uma vizinha falou tão bem que fomos dar uma olhada.

Adendo sobre creche para cães: aqui, nessa família não é uma gourmetização da guarda dos pets, é um jeito de mostrar para ela, sem risco aos outros, que ela não é unica, que precisa se socializar e assim acaba ficando uma cã mais calma e ciente do seu tamanho. Ela também precisa correr. E no espaço do prédio não é permitido. Na praça, se ela correr para rua, é atropelamento na certa. Enfim, até para os cães está complicado de se socializar na cidade... Por isso, a creche, uma vez por semana.

Pois bem, o espaço realmente é muito legal. Os cães ficam todos juntos. Tinha de golden a york, tudo tranquilo, brincando mesmo. Meio coisa de matilha: fica todo mundo indo de um lado para outro. Pandora ficou excitadíssima. Cheirou tudo, não sabia se ficava ou se ia embora tamanha a felicidade.
E fui conversando com a menina sobre os cercados que ela me mostrou, sobre o banho, sobre os dois monitores o tempo todo cuidando deles (pegando no colo, o que não acho adequado...).

O lugar é realmente uma fofice.

Aí ela foi me contando de cada hóspede. Desde esses pequeninos yorks, o border collie, a shitzu amigável, até um paulistinha branco com manchas marrons, muito fofo. Ele não se destacava na matilha. Ia e vinha com os movimentos do grupo, corria e brincava como todos os outros.
Ela me disse que esse paulistinha – que esqueci o nome – é muito hiperativo. Não para de jeito nenhum. Ele roeu, na última semana, todos os cabos de eletrônicos da casa. E que ele fica na creche umas três vezes por semana ainda. É castrado. Disse também, que a dona em concordância com a veterinária, está pensando em tratá-lo com fluoxetina.

Oi?

Minha reação foi involuntária. Foda quando isso acontece. Eu arregalei os olhos e disparei:

- Mas Santo Deus! Fluoxetina para o cão que quer atenção, brincar? Porque não pensam em adestrar?
Já tinha saído. Sim, me arependi porque eu não tinha nada a ver com aquilo.

A menina responde meio assustada com a minha reação, mas sem grandes compromissos:
- Ah, eles não têm tempo, né?

Meu, que bosta de sociedade estamos construindo na qual alguém adota um cão, não tem tempo para cuidar, daí resolve medicalizar porque o cão não está nos padrões de comportamento “lap-dog”?  Já há uma imensa discussão sobre a medicalização da educação em crianças e agora sobra pros caninos também?

Tristeza.

Eu sei, eu sei que estou julgando sem conhecer a situação, sem ser veterinária, sem saber ao certo do que o paulistinha é capaz. Mas o que a gente tem visto de dotô por aí socando remédio em todo mundo, não está escrito. E a culpa não é deles, não, bem sei. É de uma sociedade que precisa enquadrar tudo em um determinado padrão. A gente achou que tinha superado isso. Pelo jeito não. Criança precisa se comportar. Cão precisa se comportar. Idoso precisar se comportar. Só o adulto pode continuar fazendo besteira...


Nessas horas eu lembro dos pinguins de Madagascar: sorria e acene.


Não há indicação de autoria. Reportar informação.



sábado, 13 de fevereiro de 2016

As meias precisam ser brancas





Eu sou de uma geração que está espremida entre duas outras que tratam as “coisas de casa” de uma maneira muito diferente. E, sim, isso me causa crises de identidade de vez em quando.

Minha mãe veio da geração de mulheres que fez o curso de Educação Familiar. O curso, a nível técnico, ensinava como administrar uma casa. Segundo ela, tinha aulas de corte e costura, culinária e orçamento doméstico. Foi com ela que aprendi a arrumar a cama de maneira compulsiva, a ponto de não conseguir ficar uma hora sequer com ela desarrumada pela manhã. E foi com as milhares de vezes que ela desarrumou a cama porque o “lençol estava com a costura do avesso”, que adquiri a obsessão de fazer a dobra dos lençóis sempre do lado certo. Não a culpo, de forma alguma. Até porque foi minha decisão manter esses padrões de arrumação. Essa, depois de muita terapia, sou eu mesma e gosto dessa organização.

Já minha irmã reagiu de outro jeito. Ela nunca arruma a cama. E é feliz assim.

Bem, mesmo tendo feito a tal da Educação Familiar e propalá-la nas filhas (mulheres, claro), minha mãe sempre trabalhou fora. A mãe dela, minha avó, sempre trabalhou fora. Isso fez com que tivéssemos a referência de mulheres que sabiam fazer todas as coisas de casa, mas que não se dedicavam somente à casa (ah... a jornada dupla...). A casa não era o centro da vida dela, mas é impressionante o quanto de cobrança ainda havia na minha mãe em relação à vestimenta de todo mundo, em relação a tudo estar em ordem, em relação às manchas das roupas serem tiradas, em relação aos panos de prato que deveriam ser brancos, em relação às meias que não podiam estar encardidas.

A gente tinha ainda a Mena que nos cuidava e cuidava da casa. E a Mena fez curso para passar roupa. Passa roupa como ninguém. Nunca vi alguém melhor do que ela. Mas tudo isso era para garantir as camisas do meu pai, que deveriam ser perfeitas.

Pois bem, casei, mais de uma vez, e na minha casa eu não tinha mais a mãe gritando que as coisas tinham que ser assim ou assado. Poderia fazer tudo do jeito que eu queria. Foda-se o que os outros iriam dizer. 

E me encontrei com amigas que fizeram questão de quebrar com essa perfeição no lar. Panos de prato limpos, mas cheio de manchas. Roupas nem tão bem passadas, quando eram. E ninguém morria.

Hoje estou casada com um americano que nunca precisou passar roupa, ou nunca entendeu que isso era importante. Que nunca teve mulheres na família lavando os tênis ou tirando manchas.

Eduquei o meu filho para passar a roupa dele, se ele quisesse, e lavar os tênis quando assim achasse necessário. Ele que descubra os códigos sociais do ambiente onde ele está e os cumpra. Se quiser.

Mas nesse carnaval fomos os três para as montanhas. Chegamos em casa com lama até nos cílios. As roupas foram para a máquina de lavar. Direto. Os tênis, bem, deixei de molho e fiz cada um lavar os seus. No mesmo dia. E as meias, eu lavei. Esfreguei. Usei o sabão caseiro que a irmã da minha vizinha fez. E deixei corando. E esfreguei de novo. E coloquei na máquina para lavar.

Porque, as meias precisam ser brancas.  


E porque história social é como craca. Você passa a vida tentando lavá-la de você.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A Pergunta

Entendo que devemos deixar um legado. Vc está vivendo o que seria o adequado na história da sua vida?

Eu disse pra ele fazer uma pergunta. Pensei que vinha alguma coisa tipo: Você gosta de acarajé? E ele mandou a pergunta que precisa de um livro para a resposta. Ou de uma palavra – como ele gosta: "Não".  No meio, uma vida.
Você não sabe, mas eu já respondi essa pergunta várias vezes. 
O sonho da minha vida era casar, ter três filhos lindos e maravilhosos e ser feliz até a morte passando pela velhice e pela doença.  Mas esqueci de combinar com os russos.  Até hoje não sei se mudei eu ou o sonho.  Mas aquela mulher com três filhos e provavelmente alguns netos, não seria nada adequada à história da minha vida, a começar pela separação no tempo em que “desquitada” era puta.  E tratada como tal. 
Fiquei uns 30 anos sem ver meu primeiro marido. No dia em que iríamos nos reencontrar em Porto Alegre, no avião me dei conta da pergunta que ele faria: O que você fez nesses trinta anos?  Peguei a velha caneta, o bloquinho de papel e escrevi: “Vivi na Bahia. Trabalhei muito, conheci gente bem interessante e muitas horríveis. Viajei bastante, mas menos do que eu gostaria. Tive mais um marido e não tive filhos”.
(às vezes saber ser concisa ajuda muito).
Continuando a resposta... Não sei se seria o “adequado à minha vida”, mas gostaria de colocar uma mochila leve nas costas e ir.  Sem pressa. Como observadora. E absorvadora... – aquela que absorve (argh).
Gosto da sua tranquilidade quando você fala de conclusão. De impermanência. Da morte.  Mas não gosto da palavra legado. 
Primeiro me lembra da trágica copa do mundo no Brasil. Parece que a palavra não existia antes. Nem existe agora. Pelo menos legado da copa não existe. Mas... volta... não gosto da palavra. Tem um grande quê de ego. De vaidade. E brigo com meu ego – quando sou capaz de percebê-lo. 
Assim, deixando o ego de lado e consciente da impermanência, lhe digo que não há legado meu. Dificilmente haverá.  Não assim.  Não o concreto! Nada de holding. Ou uma invenção revolucionária.  Ou ainda uma nova forma de arte.  Sequer um best seller. Posso até construir uma ou duas coisas antes da morte, mas não é isso. Espero deixar valores (exceção feita ao anel de formatura de piano).  
Penso, trabalho, medito, oro e ajo pra fazer o mundo um pouquinho melhor (olha o ego aí...) com minha vizinha mais feliz, com dois gatos de rua abrigados e alimentados, com a gargalhada gostosa da minha sobrinha, com o sentimento de ser muito amado que deixo com quem eu amo sempre.  
Acordo sabendo que poderia não ter acordado e às vezes consigo respirar consciente de que aquela inspiração pode ser a última.  Morreria com uma baita saudades de ti. 
Assim, se alguém fica feliz quando estou perto, se outro fica melhor com um bilhete meu, se deixo mais ameno o cansaço da senhora que está de pé numa fila ou ofereço meu lugar na janela do avião para a criança que chega...  está bom.
E se eu conseguir sempre fazer isso e um pouco mais, terei deixado um legado e tanto.   

Quanto a sermos sexagenários e termos nossa história caminhando para uma conclusão... Você né fio?  Eu não... 
Acredite: sessenta são os novos quarenta baby!  (eu ía escrever quelido mas...) 

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domingo, 6 de dezembro de 2015

A taça partida

Mais uma taça de vinho se partiu ontem. Não quebrou, só trincou. Era um aviso de que aquelas taças, aos poucos, vão desaparecer. E fiquei refletindo o que isso significaria.

Essa taça faz parte de três que restam de um conjunto de seis. As outras se quebraram. Elas já têm uma idade avançada, mas fico pensando se têm histórias suficientes para contar. Eram da minha avó materna. Ela faleceu no dia 05 de dezembro de 2008. Tinha 79 anos. E, não sei ao certo, mas ela deve tê-las ganhado de casamento. O que me faz pensar que a idade dessas taças beira os 65 anos...

Hoje, vendo a taça partida, fiquei pensando o quanto minha avó deve tê-las usado. Ou, se, as usou. Lembro, quando era pequena, de visitá-la em sua casa e encontrar a cristaleira que hoje está na minha sala cheia de copos, garrafas coloridas e essas taças, pequenas, desenhadas com dourado. Mas a cristaleira sempre estava cheia de pó. E cheia de lembrancinhas de alunas dela.
A taça trincada na cristaleira da vó

Minha avó, mesmo sendo de uma personalidade difícil, teimosa, muitas vezes rancorosa, fazia um trabalho fantástico. Em um centro de assistência social ela dava a outras senhoras um sentido que ia além do de ser dona de casa ou mãe: ela as ensinava a costurar, a produzir roupas, a tricotar e a fazer crochê. Para aquela mulherada que muitas vezes era espancada pelos maridos, mas não via outra saída a não ser ficar em casa, ou as que sofriam por não ter ao certo com que alimentar os filhos, era uma visão de que as coisas podiam mudar. Elas ficavam muito agradecidas por todo o ensinamento, atenção, a possibilidade de independência financeira e auto-estima que aquelas aulas significavam.

Hoje fico pensando que, sem que eu tivesse consciência, minha avó pode ter sido o primeiro exemplo na família que puxou uma ação de empoderamento das mulheres. Mesmo sendo, em seus pensamentos e julgamentos, muito machista, reproduzindo muitos dos padrões de submissão feminina da época, ela, sem saber bem ao certo, dava ferramentas a muitas mães e donas de casa para serem independentes. Muitas delas viram o sentido profundo disso tudo e a agradeceram do jeito que podiam: fazendo bibelôs, pequenas lembranças. E minha avó guardava tudo na cristaleira. Mas deixava tudo lá, cristalizado, parado, pegando poeira.

Além disso havia o pensamento de que aquilo que era bom, chique, de melhor qualidade, deveria ser usado em dias especiais. Deveria ser guardado, preservado para que durasse mais, afinal, seria difícil repor. Não havia dinheiro.
Quando a vó adoeceu, a casa precisou ser reconstruída, houve um mutirão de limpeza para organizar e dar outro fim a tudo que ela tinha guardado. Ela ia morar com a minha mãe e cada um da família foi ver o que poderia ter como lembrança. Eu pedi à minha avó, com a anuência dos meus tios, a sala de jantar. E trouxe para minha casa a mesa, o balcão e a cristaleira com os cristais. Tudo tem um grande significado porque foi testemunha de praticamente a vida toda dos meus avós.

Mas eu também tive que tomar a decisão sobre preservar as coisas ou usá-las.  E, muito cedo, aprendi que coisas foram feitas para serem usadas e pessoas para serem preservadas. Assim, tudo o que estava na cristaleira foi sendo usado desde que está na minha casa, há mais de 10 anos. Inclusive as taças de vinho. Pequenas, com detalhes dourados. No uso, algumas se quebraram. E com a quarta trincando, penso que logo elas vão desaparecer como tudo, nos cacos da vida.


Não me arrependo.Essas taças poderão ecoar conversas alegres e festivas ou noites de reflexão solitária vindas da minha casa. Não da casa da minha avó, onde elas ficaram por quase 50 anos intactas, mas sem servir ao seu propósito de conter os líquidos que embalam os dias e noites memoráveis. Uma coisa é certa: essas taças se eternizarão em muitas memórias de dias especiais da minha vida. E, em algumas fotos, quando alguém se lembrou de tirá-las.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Balas de goma


Sabem aquela nojeira chamada bala de goma? Então a pessoa que há meses não sabe o que é açúcar, passa no supermercado e se depara com as ditas cujas penduradas, escancaradas, abusadamente oferecidas, fofinhas, coloridinhas, redondinhas, ao alcance de uma dentada...duas dentadas...uma bochecha cheia de doçura... Eis que a boca começa a salivar, o olho não enxerga mais nada além das cores que já viraram néon; o cérebro arruma um monte de desculpas e a mão puxa o primeiro saco. 
Um só?? Não!!! Em porcaria que se preze é preciso ir fundo! Pega mais um! 
Tamanho pequeno? O quê??? Nem pensar!! Tamanho médio, quase grande! Precisam ser muitas...muitas!!! 
Cair de boca! Se jogar! Pisar na jaca, e com os dois pés! 
Tem dias em que ELA diz: pode! Pronto! Eu posso! Comi um saco inteiro para a alegria da minha criança gulosa e feliz! Lembrei do avô que me enchia de balas e, segundo mainha, foi o responsável pelas minhas cáries na primeira dentição. Liguei o foda-se!
Hoje é um daqueles dias em que eu preciso disso!!!


Rejeitando a normose

Ontem era para ser um dia qualquer. Não, na verdade nenhum dia é igual ao outro e, se colocarmos significado em tudo, veremos a especificidade de cada momento.

Mas era para ser um dia sob o status da normalidade. Tudo correndo de maneira adequada, prevista, comum.

Até o momento em que cheguei em casa, as 23h, depois de uma maratona com o Bóris, estava tudo bem. Bóris é o cão achado que estamos cuidando de maneira comunitária – sim, temos amigos fantásticos ajudando – até que ele encontre uma família digna dele.

Bem, em casa nos dividimos nos afazeres. O marido precisava preparar uma aula a ser dada cedinho, eu e filho discutimos dividindo os outros afazeres.

Eu: - Você prefere levar a Pandora (a cã) para fazer o xixi ou recolher o carro na garagem?
Filho – o carro, claro.

Descemos os três: ele, Pandora e eu. Eu atravessei a rua e fui para a grama do vizinho - que é sempre bem mais verde, inclusive para os dogs – e esperei ali a cã reconhecer os cheiros. Nisso, um homem resolve atravessar a rua e, em todo o seu trajeto falava algo sobre a cã que estava passeando. Até então não tinha dado bola, porque acostumei com gente falando sobre cã. O homem não parou de falar andando em minha direção. Ele estava entre eu e minha casa. E, em determinado momento, pude ouvir:
- te pegava todinha e dava um jeito de te fazer...

O desespero bateu. E a primeira coisa que fiz foi pensar que meu filho estava ali, a alguns metros, na garagem. Que ele era homem. Que ele era alto. Gritei.

- Diogo!!! Tem um moço aqui querendo falar com você.

A cara de desespero do homem, que continuou andando descendo a rua sem passar por mim, foi nítida. Havia um macho no local.

Meu filho veio calmamente atravessando a rua. O homem apertou o passo e desceu para cuidar dos carros. Eu me expliquei, me sentindo muito impotente.
- Desculpa, Di, mas ele estava falando besteiras.
- Eu ouvi.

Ele me acompanhou em todo o trajeto com a cã. E conversamos.
- Você consegue entender o quanto isso é ridículo? Eu ter medo de enfrentar um homem desses, colocá-lo no lugar dele? A primeira coisa que pensei foi em correr para casa, mas ele estava entre eu e a casa. Por que temos que sempre ter medo?
- É mãe, não é fácil para vocês, eu sei. Eu vejo isso todos os dias. Minha amiga do trabalho poderia fazer o mesmo trajeto que eu faço todos os dias, no mesmo horário que eu. Ir caminhando para casa. Mas ela não faz quando escurece. Porque é mulher, porque tem o computador com ela, porque...  

- A gente precisa mudar isso.
-É, precisa.


Não, isso não é normal. Não é.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Over





Gente, hoje estava tentando colocar as minhas coisas em ordem. Na minha cabeça, isso significa tomar o controle pelo menos informacional de tudo que me ronda, ou ronda o que faço. E vi que a coisa toma um contorno desesperador nos dias atuais. Principalmente no que se refere a redes sociais.

Comecemos pelo Facebook. Eu não consigo mais ficar fora dele. Ele me traz mais lucro que prejuízo, mas só ver que não consigo ficar sem ele mais, e sem os contatos facilitados por essa rede me dá um certo desespero. E me faz evitar entrar em outras redes. Porque vai que acabo não conseguindo ficar sem elas também?

Hoje descobri que tenho uma conta no flickr de 2011. E nenhuma foto lá. E um email vinculado a essa conta que nunca usei. Nunca entrei, nunca chequei. E vi que essa conta do flickr está sendo seguida por uma galera! Para verem nada! Porque tem nada lá!

Bem, tenho uma conta no twitter. Mas ela foi criada para fazer as minhas pesquisas de doutorado e devo postar uma coisa lá a cada 6 meses... Acho. Fico com aquele sentimento de estar devendo, sabe? Devendo uma satisfação... sei lá. Gente, tenho vários seguidores. Seguidores de nada. Ou quase nada.

Tenho três contas de email. Uma delas que entro a cada 3 meses para limpar os emails que se acumulam. E peço desculpas pela demora na resposta à gente que me contatou ali. Porque eu demoro. A terceira descobri hoje.

Tenho um perfil no skoob. E uma estante de livro que atualizo sempre que termino cada três... E daí gosto de olhar a estante de livros que tenho lá. É como um registro dos livros que eu li. Uso para isso. Mas tem amigos que tentam me contatar lá. E ficam sem resposta. Porque, bem, não dou conta mesmo.

Por causa da conta do gmail eu tenho o tal do Google +. Foi uma obrigação, se não me engano. Eu não queria aquilo mais. E tem gente que me adiciona lá. E não faço nada, porque não quero interagir lá. Mantenho-me solenemente em silêncio para não ter que alimentar outra rede.

Tem o linkedIn, que é tipo um currículo. Mas as pessoas te contatam, fazem artigos e gostam das mudanças profissionais da sua vida. Colocam também algumas qualidades que você tem. E te adicionam, mesmo não te conhecendo.

Tem o academia.edu onde estão meus trabalhos científicos.  Alguns. Tive que abrir lá para disponibilizar alguns artigos que não estavam mais disponíveis nos sites dos congresso que participei. E o lattes precisa de links. Daí a gente abre um perfil do academia.edu para fazer o link dos artigos. Humpf.

Tenho um perfil no tripadvisor. Porque gosto de viajar. Faço avaliação dos lugares, mas mais porque quero também fazer um diário de viagens. E tem gente que faz perguntas para mim lá. E eu acabo levando mais de dois meses para ver que tem perguntas... Muitas vezes a pessoa já viajou e eu nem dei a dica que precisava.

Tenho um blog. Outro, não esse. E nesse blog coloco também algumas coisas que têm significado. Mas pouca gente interage lá. E eu acho bom.

Mas nada mesmo eu tenho no instagram, snapchat ou essas redes novas. Não consigo. Não dá.


Fico pensando que se quisesse usar o meu padrão de “organizar coisas” em todas as redes eu passaria o resto da minha vida postando. Em vez de vivendo. 


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O ENCONTRO - 50 anos depois - dedicado a Ewa Danuta Cichecka

Rosária.
Linda.  E alta. E loira. E jogava queimada como nenhuma outra.  Pra cortar os pulsos cada vez que via... mas não. Era doce, bem humorada, feliz.  Queridissima.  Reencontro  Rosária mais de 40 anos depois e quase cortei os pulsos. Só não cortei porque não jogamos queimada!  Ela é a mesma. Do Luiza com Z mas que pode ser com S e ela sabe disso. Luiza Macuco.  Rosária cuidadosa com os amigos, reúne as meninas da classe todos os anos. Que classe? A de 1965. A de 50 anos atrás. 
Pausa para respiração profunda.
Trocamos virtualidades.  E agora, acho que desde semana retrasada, tá lá Rosária no meu inbox avisando da próxima reunião. Ela é cuidadosa lembra? Quer saber quando posso ir... e daí em diante tem sido uma avalanche de recordações amorosas todos os dias, todas as horas, minuto a minuto às vezes. 
Fomos ressurgindo. Cada um trazendo seu melhor – às vezes esquecido, guardado junto com uma letra de música amarelada, a carteira do grêmio estudantil, o boletim com mais faltas do que notas, convite de formatura... ou as fotos. Muitas fotos. Pego a minha de 1965. A única que faltava para a Rosária. Somos crianças. Quase todas com 11 anos.  1.ª Série do Ginásio.  Colégio Estadual.  Era brabo para entrar. Tinha exame de admissão depois do primário e às vezes não dava pra passar e a gente tinha que fazer um 5º ano de Primário. Estamos lá na foto do PantaleÓN Alcaraz que nos fotografou até o 3.º ano e nos colocou na mesma capa de papelão verde com o endereço na frente e o preço dentro.  Cr$ 1.000,00 (antes dos cruzeiros novos). 
As lembranças não chegam em anos. Nem separadas em arquivos por letras do primeiro nome. Chegam se atropelando. Paulo Esteves. Só toquei em público uma vez - na minha formatura - e uma vez para ele. Fiz uma audição de piano exclusiva.  Heloisa Hunold.  Dezenas e dezenas de vezes, na frente de um arquiteto bam bam bam, eu lembrava da casa dela, com aquela mesa de cozinha gigante embaixo de um pergolado transparente  com pé  direito triplo.  A Ewa que me trazia histórias de um mundo muito distante e do irmão dela que jogava rugby. A Leka e a Sonia. Parceiras de noites sem dormir e cigarros roubados.  A Ana e o cabelo igual ao meu.  A Lurdes, séria e inteligente. A Cristina Mancuso, uma espoletinha sempre pronta. A Dalva e o Régis... ui...  A Eunice e o mesmo humor contagiante! O mesmo sorriso sem medo de nada! Os laços da Tania. Os irmãos mais velhos ou mais novos na cantina. O Bizelli e o Rinaldi, dupla inseparável de doces amigos e uma caixinha de música azul. Espiga, China, Aragão – e o amado irmão dele - que mais do que vencer no basquete, ou de representar nosso Luiza por aí, eram nossos companheiros queridos!  Cansei de sentar a bunda no gelado concreto das arquibancadas dos ginásios pra ver vocês jogarem!  Carrasco, Lumumba, Ernestos, Pepino... A letra da amorosa sofrência da Leda. A voz cantante do Sujo. O piano do Bizelli e a bola de basquete do Rinaldi. Meninos que foram nossos primeiros exemplos de homens! E foram mesmo! Dos melhores exemplos! (como menina, torço para que também tenhamos deixado uma boa impressão feminina pra eles!).
Na verdade nós não deixávamos impressão. Nós éramos. Aquilo ali. Aqueles ali. Sem photoshop ou filtro. Sem selfie. Sem usar chats pra contar as novidades. Soubemos como viver cada a cara, olho no olho, todo dia, 4 ou 5 horas por dia, às vezes mais, por 3, 4, 5, até 7 anos seguidos,  como as meninas da foto de 1965!  Nem sei mais o que é preciso pra isso. Nem sei se isso ainda é possível mas com a gente foi. Crescemos juntos.  No amplo significado da palavra.  O Luiza viu a nossa transformação em adultos. Nós nos vimos... nós nos acompanhamos.  E as perdas doeram como se a notícia fosse dada no meio de uma aula.
Fato é que naquele estranho “submarino” meio achatadinho,  no fim da cidade, depois do canal 6, criamos um elo que agora nos transporta para aulas, notas, professores, esportes e festivais. Bailinhos, aniversários, encontros ao redor de um violão. Nos leva num passeio pela cidade antiga, pelas casas onde moramos, pelos bondes, pelos exames de segunda época... senta a gente naquelas pequenas carteiras de madeira em ripas e nos veste com uma saia pregueada – ou calça - e um vulcabrás nos pés.
Temos um delicioso elo que faz com que – quase – quando eu saio do computador, depois das nossas conversas virtuais, sou capaz de me ver no espelho de franja.  “Nosso reencontro nos transforma” (Ewa).
Aliás, acho que vou pedir pra costureira fazer uma saia cinza com prega macho na frente, comprar uma meia três quartos branca e um mocassim preto. Só pra rir... porque o elo perdido já encontramos.  Ou, nunca perdemos.



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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A difícil arte de soltar o galho



Um alpinista estava subindo a montanha. Estava sozinho e muito frio. Foi escurecendo e tudo ficando mais difícil antes de chegar no acampamento. Em um movimento em falso acabou escorregando e conseguiu se agarrar em um galho de árvore. No escuro, sem companhia o alpinista pediu a Deus para ajudá-lo. E ouviu uma voz: eu ajudo, mas solte desse galho. O alpinista achou que era loucura  fazer aquilo. Não dava para ver nada naquele breu já que a lanterna caiu no escorregão. Pela manhã, o corpo do alpinista foi encontrado congelado, pendurado no galho, a um metro do chão.  


Sou uma pessoa controladora. Já estou bem melhor e me frustro menos quando as pessoas não fazem o que eu quero que elas façam. Mas adoro controlar os processos e minha vida. Ter certeza é reconfortante e me sinto muito bem confiando no meu taco, em vez de colocar a minha vida nas mãos dos outros, ou de algo.

Pois bem, já entendi que ninguém sai dessa vida do jeito que entrou. E, esse ano, as lições começaram bem cedo. Mais especificamente na virada do ano. Estava eu e meu marido e a nossa cã recebendo um amigo querido da Alemanha que veio passar o Natal e o Ano Novo aqui. Tudo muito lindo e eu controlando a cozinha, os quitutes para nós três e, de certa forma, o convidado, o marido e a pet, porque enquanto cozinhava pedi que fossem ao jardim tomar alguma coisa e brincar e relaxar. Assim eu ficava mais tranqüila fazendo as comidas para a ceia.

Enfim, na hora em que fui tirar o chester do forno – que eu tinha feito com molho de laranja – a forma inclinou-se e o molho escorreu para a minha mão esquerda. Pode parecer mentira, mas eu nunca tinha me queimado antes.

Chorei de dor. O reflexo me fez colocar a mão, correndo, embaixo da água da torneira. E, no mesmo momento, o amigo alemão subiu com a cã que adora lamber tudo no chão. Gritei com ele para ir para a sala com ela e fechar a porta porque eu precisava limpar a bagunça do molho espalhado pelo chão.
O marido veio logo atrás e tomou a frente das coisas. Como alguém que já se queimou várias vezes e tem o know-how, fez um pacote de gelo e entregou para eu ficar segurando com a mão esquerda, que fora da água, ardia horrivelmente.

Eu tinha uma bagunça enorme que queria limpar, um jantar por terminar, e, de repente já não podia fazer as coisas sozinha e do meu jeito. Minha mão ainda queimava. Os dois rapazes me afastaram da cozinha dizendo que era só para eu dar as coordenadas que eles terminariam o jantar.

Como assim? Como seria possível eles fazerem tudo sem mim? Claro que não fariam do jeito certo!!! Claro que não ficaria tão bom já que não estavam usando os meus métodos.

Sentada na sala, com um pacote de gelo na mão esquerda outra coisa queimava. Meu controle. E, tentando ser um pouco esperta, vi ali mais uma lição: deixar as coisas se construírem por si, pelas pessoas, pelos outros, pelo universo. Pelo jeito de outrem. É sofrido, mas não é impossível.  Brindamos juntos a virada do ano. Eu com a mão segurando o gelo como recomendado. No outro dia, depois de ter dormido com o pacote de gelo amarrado na mão, eu tinha somente uma pele um pouco sensível. Nada de bolhas. Minha cozinha estava limpa. Tudo se ajeitou.


Mas eu não sabia que esse era só o começo das lições que eu ia tomar durante o ano. Só o começo. 


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Partidas inesperadas

Morrer é um fenômeno duro. A experiência finita do ser. O fato inexorável. Não há como suavizar. Não há como alterar. A morte chega, pesada e definitiva, ainda que a saibamos. Pode ser uma morte prevista decorrente de doenças. Pode ser repentina, inusitada, inesperada, indesejada  das gentes, como disse Manuel Bandeira. Chegará sempre!
Morre-se também de tristeza. Não aquela visível, mas a que te vai no fundo da alma, mesmo que a aparência seja risonha. Helena Rosa da Cruz tinha 56 anos e era vista como uma guerreira. Perdeu o casal de filhos no incêndio da boate Kiss. Dois anos depois, no início desta semana, sucumbiu a uma pneumonia. Difícil não pensar que desistiu de ficar.
Aqui ficaram as marcas. Cada acidente com fogo ou incêndio com vítimas, a cidade revive a tragédia. Filhos nunca deveriam anteceder aos pais na hora da partida. Perder filhos é esvair a vida. Pode ser aos 20,30... 80 e mais. Te arrancam um pedaço e te deixam atônito.
Sim, o espírito está fúnebre, mas não tem como ser diferente nesse momento. Preciso jogar fora essa dureza toda para ver se a alma alivia.



quarta-feira, 22 de julho de 2015

Apenas dormir!


Vira para a direita. Acomoda a perna no travesseiro, outro apoia as costas. Um terceiro tem que ficar no pé para manter o mesmo nível. Confortável? Por alguns minutos. Dói o quadril porque o peso do corpo incomoda no colchão firme. Se mexe um pouco. Tenta se aninhar sem alterar a logística. Ajeita o pescoço à altura do ombro. Dois travesseiros para equilibrar. Não deu. Cervical reclama. Tenta de novo. Agora o joelho não aceita ficar dobrado e o quadril reclama da nova posição. Hora de começar de novo. Vira para o outro lado. Acomoda a perna esquerda e tenta ajeitar a direita. Um travesseiro, dois travesseiros, três travesseiros... ficou mais ou menos...melhor ficar de costas, perna erguida...relaxa um pouquinho! Ligamentos dão sinal de que estão ali...reclamando! E lá se vai a madrugada. Tem sido assim há três meses. 


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Tempos sombrios

ELA está assim...introspecta! Não quer falar, nem escrever. Não quer nem gente por perto, tece e fala sozinha...e eu escuto, claro!
Diz gostar da invisibilidade que os anos trazem, bem como dos cabelos grisalhos, mas particularmente no dia de hoje está sombria. Talvez porque hoje fazem oito meses que o pai dELA partiu.
 E também porque ontem entreguei a ressonância do joelho  dELA no consultório do médico. Hoje ligaram de lá.  Disseram que deve parar por mais um mês. Nada de trabalho!
Ontem a amiga estava em Montevideo. Hoje, ligou para ELA, e disse que vai fazer uma cintilografia, porque inicia tratamento com oTrastuzumabe. O remédio, que custa a bagatela de R$ 8 mil reais e é um dos medicamentos de ponta no tratamento do CA de mama, tem como um possível efeito colateral o enfraquecimento do coração. "Dá nada calcinha furada", disse a amiga antes de desligar.
Hoje, ELA falou com o primo que está como filho no hospital há mais de um mês. Um dia de cada vez e alimentar a esperança. Mais a paciência, a perseverança,a compaixão e o amor incondicional de pai e mãe. ELA sempre diz que a amiga e o primo têm em comum o dom de driblar a dor com uma boa dose de humor. São resilientes. Mais do que eu e ela juntas, com certeza.
E ficam as alegrias que também movem a vida. Ontem, Maria fez oito meses.
Amanhã a mãe dELA faz 81 anos. 
Quem  sabe se alegra um pouquinho?


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Nem sempre quem está na chuva é para se molhar...

Chuva e frio em Curitiba. Do tipo de umidade que dói nos ossos. Esses últimos dias estão cinzas, molhados, daqueles em que nada seca. Donas de casa devem estar rezando a Santa Clara por um dia de sol para secar as roupas. Eu estou rezando.

E, dentro da rotina, nessa umidade toda, eu cruzo boa parte do centro da cidade que me leva do tubo do ônibus (sim, em Curitiba é tubo) até o trabalho. Passo sempre nas principais praças centrais, dessas que foram palco da origem da cidade. Numa construção, numa dessas praças, há o único relógio de sol da cidade que sempre me faz pensar em como as pessoas faziam pra não chegar atrasadas em dias “gris” como esses...

Pois bem, ontem à noite, indo embora, fazendo o caminho inverso, trabalho-tubo, passei por uma ação da polícia de operações especiais do município. Não sabia que tínhamos operações especiais em nível municipal. Pior, não sabia que operação especial significava três viaturas azuis que eu não sabia que existiam, homens fardados e cães farejadores para fazer buscas em moradores de rua que estavam se ajeitando para ir dormir em uma noite úmida e fria dessa Curitiba nem um pouco acolhedora.


Pensei em ficar como testemunha. Testemunha do que?? Pensei em como esse mundo está virado. Pensei em quantas pessoas estão morando nas ruas que passo todos os dias.  Pensei naquela foto recém espalhada de um caminhão juntando todos os agasalhos que estavam em hidrantes e buracos na cidade para jogar fora. Pensei que, fazendo esse caminho todos os dias, nunca me senti ameaçada por nenhum desses moradores. Mas ontem me senti insegura com a polícia. Pensei se usariam de força desmedida. Pensei na polícia que jogou bombas nos professores em abril. Pensei que tipo de ordem foi dada para ficarem, a essa hora, fuçando nos colchões e cobertas de quem tenta se aquecer. Pensei naquela senhora sexagenária que roubou uma ferramenta para poder ir para a cadeia onde teria alguma comida e algum tipo de proteção contra o frio. Pensei nos meninos  de 4 Pinheiros que me ensinaram que boa parte de quem está na rua foge de um inferno pior, naquilo que deveria ser uma casa. Pensei quantas vezes esses moradores já foram abordados pela polícia ou quantas pessoas já fugiram deles. 
Anos.
Anos que passo por eles diariamente, em horários diversos, inclusive tarde da noite. Nunca vi briga. Nunca vi discussão. 
Fui para casa pensando. E me sentindo insignificante frente a isso tudo. 
Que bosta.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Quem protege quem?


Eu não sei dizer quando começou exatamente essa coisa da proteção animal.

Tive cachorro na infância e na adolescência. Mas talvez tenha começado mesmo com o Marco. Marco Antônio. Um Cocker louco que bateu na porta da minha casa e que acabei adotando depois de não encontrar sua família.

Ele seguiu comigo pro meu primeiro emprego na capital. Era louco. Às vezes mordia as pessoas sem o menor motivo aparente. Mas me ajudou a sair do poço mais fundo em que já estive: a depressão.

Quando o Marco morreu minha irmã já era voluntária numa Ong. E eu já sabia que não saberia viver sem um cão ao meu lado. E se o Marco foi a força pra sair da depressão, a Nina, vira-latas adulta que adotei logo depois da morte dele foi a calmaria depois da tempestade.

Essa menina doce com uma mancha linda num dos olhos me apresentou à proteção animal. Como é que podia a cadela mais perfeita do mundo ter morado tanto tempo na rua e depois tanto tempo num abrigo? Quantas Ninas ainda não estavam perdidas em busca de suas Marinas no mundo?

Depois dela vieram Judith e Alanis, adotadas pela minha irmã. E nos transformamos num bando, com mais caninos que humanos. Eu, minha irmã e nossas três filhas. Foram muitos sofás, almofadas, camas, sapatos (chinelos, então!), roupas, fios de computador...tudo devidamente destruído por dentinhos afiados.

Mas meu amor por elas cresceu na proporção inversa à bagunça. Não sei explicar o porquê. Assim como não sei explicar a transformação ocorrida nos meus olhos e no meu coração. Depois delas eu nunca mais pude ignorar um vira-latas na rua. Já foram muitos resgatados: levados ao veterinário, cuidados, vacinados, colocados pra adoção. Sempre um de cada vez, graças a Deus (porque meu São Francisco sempre soube que cão e quando coloca-lo no meu caminho) foram sendo ajudados; nem que fosse pra que tivessem uma morte mais digna, sem dor, quando não havia mais  o que fazer....Fred, Camões, Clara, Vitória, Ruivo (meu menino lindo que ainda espera adoção num lar temporário). Cada um deles me trouxe uma dose imensa de amor. Cada um que chega me mostra que tenho amigos lindos ou me traz novos amigos, dispostos a ajudar: doar tempo, dinheiro, ração...comprar uma receita de palha italiana que vendo pra custear as despesas que são altas.

Eu não sei dizer quando começou exatamente essa coisa da proteção animal.  Eu não sei onde isso vai dar. Eu só sei que deles, os animais, só tenho recebido: lambidas, olhares gratos, amor, novos amigos, proteção, cura.


domingo, 28 de junho de 2015

dA Patroa


Oi Senhoras,
A Patroa ligou nervosa. Cheia de recados. Falou tão alto e tão depressa que acho que não ouvi tudo. Deu pressa no livro e quer mais textos. Eu já copiei os textos da Pró separados por data. Agora vou separar os da menina mãe Tássia. Aqui pro blog preciso de uma definição melhor para a Dr. Bozan e para a Dr Nivea. Alguém pode me ajudar?... 
Também preciso que cada uma escreva aqui usando o e-mail do google - porque daí sai direitinho com a fonte e cor de cada uma. Vou trocar pelo menos a cor usada pela Dona Marina.
A Patroa manda escrever aqui e no face. Sempre colocar lá também. E o que for muito xinfrim colocar só lá - aqui não. 
Disse que não vai gastar um dólar com esse negócio de livro. Nem vai doar as milhas que tem pra mineira ir pro sul e pro nordeste nem pras gauchas irem pra Minas e pra Bahia nem pras baianas irem sei lá pra onde.  Falou também pra gente não demorar pra terminar. E não vai me dar aumento por isso. Obrigada. Amélia. 

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Teares e tecituras



Quando voltei da Bahia - e entre as demandas que me trouxeram novamente ao sul -, me propus iniciar algo que eu quisesse muito! Era questão de sanidade!!! Foi quando resolvi aprender a tecer em tear. Coisa antiga no meu imaginário...ouvira falar dos teares desde os tempos de Tróia! Depois encontrei um arquiteto aposentado que tecia coletes e casacos de lã em tear, e os vendia no Bric da Redenção, em Porto Alegre. Aquelas peças em madeira me pareciam instrumentos fascinantes. Algo que dependia do teu manejo e cujo resultado era a produção direta pelo sujeito. Mais do que artesanal, era autoral!
Achei uma prima que também queria e uma ex-vizinha que ensinava. Comprei um tear de pente liço de 90 cm e os instrumentos básicos para começo de conversa. Descobri como fazer para cortar a lã conforme a peça, como colocar o fio no tear através do pente e dar forma à urdidura. Combinar cores é algo que não apenas te ocupa, mas te faz criar!!
Tenho também um certo vício pelos novelos de lá. Coisa herdada da minha mãe que jura nada ter a ver com isso. Mas ver muitos novelos juntos e de diversas cores,de algum modo me conforta. Fios, muitos fios!!!
Mas e de tear na mão, ali se foram muitos experimentos, tecidos, chales, mantas e cobertas. Ver as tramas se fechando e compondo os tecidos é algo que vicia. É projeto na mão. É a "coisa" se materializando. E que se quer ver pronto logo.  E é também quando a gente entende que trabalhando do lado de "fora", organiza o dentro. 
Meu tear passou muito tempo parado por conta do doutorado - quatro anos para ser mais exata. Agora, deu saudade e resolvi retomá-lo. Esta tecitura da foto aí é uma mantinha que estou devendo para um amigo há uns três invernos. Ele está mais velho e o inverno mais frio. Vou cumprir a promessa em vida!!!
Tenho também outro projeto ainda em compasso de espera - quero uma roca de fiar como esta aí da Dona Zélia, e lã crua para fazê-lo. Na minha utopia, gostaria de criar ovelhas para somente a produção de lã. Fios, muitos fios, cardados, lavados, coloridos...não seria uma maravilha?

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sábado, 27 de junho de 2015

A caixa de Pandora

Ela dormiu a tarde inteira. Já estava meio enrolada no sofá do quarto quando fui tirar uma deliciosa soneca, em meio ao sol do inverno que batia na cama (torço por mais oportunidades assim!!). Ela, então, se mudou. Esperou eu me ajeitar e jogou seu corpinho nas minhas pernas até se enrolar. Confesso que não gosto de coisas ou gentes impedindo meus movimentos livres na cama, mas o corpinho dela só encostava, e esquentava meus pés. Deixei.


Faz um ano e pouco que ela mora aqui. Nunca tinha tido uma intenção verdadeira de ter mais um ser pela casa, mas hoje eu não consigo pensar na minha vida sem ela. Isso, de vez em quando, machuca porque sinto saudades. E mesmo ela sendo calma, muito calma, não é para todo lugar que posso levá-la.  Toda vez que saio para o trabalho lá está ela na janela. Até eu sumir da sua vista ela está lá, me acompanhando. Corta o coração.

Teve uma vez que ela estava meio doente, na verdade tinha tomado vacina e era bom ficar observando. Eu tinha marcado de ir ao bar com uma amiga, perto de casa. Acabei levando-a comigo, porque ia ficar preocupada. O pessoal foi gente boa, deixou ela ficar na parte que dá para o jardim e ninguém notou que ela estava ali. Mesmo sendo um bebê brincalhão, ela se comportou bem.

A família está toda surpresa. Minha irmã insiste que eu a mimo. Minha mãe repete incansalvemente que nunca imaginou me ver a esmagando do jeito que esmago. Meu pai acha um absurdo eu dar essa importância a ela. Eu, típica curitibana anti-social, me vi fazendo amizades com vizinhos que não tinha nem ideia de que existiam, e ainda decorando os nomes dos amiguinhos dela. Comecei a caminhar, em revezamento com o gringo, pelo menos duas vezes por dia. Passei a ouvir várias histórias e dicas e preocupações de outras pessoas no meio dessas caminhadas.

 Voltei a sentir aquele aperto que a gente sente quando tem que botar limite no filho. Quando precisa ser duro para educar, quando na verdade você quer abraçar e beijar e esmagar. Tiro fotos dela. Várias. Converso horrores com aquelas orelhas atentas e posso apostar que ela me entende. Tento acreditar que ela é feliz, mesmo com os limites que imponho, até porque é calma. Passei a fazer pesquisas no Google para entender certos comportamentos, questões de saúde e outros. Fiz listas de alimentos que ela pode e não pode comer e pendurei na cozinha. Tive que me desculpar por estar usando objetos mastigados – como meu pendrive – mas não me importei muito. Tive minhas amadas plantas cavadas e retiradas do vaso. Vários travesseiros “explodiram” aqui em casa espalhando espuma para todo lugar. Passei a limpar cocô e xixi com a naturalidade que fazia quando o meu filho era bebê.



É, Pandora abriu uma imensa caixa em mim. Uma caixa dessas que eu nem sabe que existia.

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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Opinião alheia ou o gosto do outro



Só tenho uma calça jeans no armário. Raramente ela sai de lá. Mas hoje saiu. E já ouvi uns dois ou três comentários:
Meu cabelo é anelado. Adoro meus cachos. Mas às vezes faço uma escova pra variar....Aí eu sempre escuto:
- Nossa! Seu cabelo fica lindo escovado!
E com uma certa frequencia escuto em seguida:
- Mas não faça progressiva, pelo amor de Deus! Seus cachos são lindos!
Em assuntos menos fúteis, já ouvi de tudo:
- Feliz é você que não casou! Tem liberdade!
- Mas você ainda não casou? Desse jeito não vai poder ter filhos!
- Pra arrumar um namorado você precisa sair mais, ser mais atirada!
- Esse negócio de sair à caça não resolve. Na hora certa o cara certo aparece!
E eu fico pensando que se a gente for ouvir os outros, vai virar um Frankenstein: com cabelo liso com as pontas aneladas; com uma produção calça com vestido por cima; sem falar no comportamento esquizofrênico: num dia A tímida no outro A periguete.

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sábado, 2 de maio de 2015

Tempo, tempo

Faz tempo que não escrevo aqui. Aliás, ninguém mais escreve. E tanto que nem mais encontro a minha cor. Até o blogger mudou. Será que estou retrógrada? Ainda gosto de ler em livros. Voltarei a escrever em cadernos, com caneta ou lápis? Terei que fazer caligrafia. E vejo todo mundo lendo apenas no facebook. E isto se o texto não for longo. Experimenta postar lá algo com mais de dez linhas! 
O que me assusta é que um novo modo de pensar parece vir embutido nesse processo. Ou seja, não mais pensar. Liga o automático e as respostas saem prontas, superficiais, rasas, periféricas e apressadas. O importante é responder, não importa exatamente a quê. E a dimensão da leitura é medida pelo número de curtidas. E o tempo passa ser o da ausência. Ausência do contato real, do olho no olho, da escuta, do tempo para o outro. Todos conectados e dissociados, desligados do que ocorre ao lado ou bem na frente do nariz. E com a pressa vem a impaciência. Com ela uma agressividade com tudo e qualquer um que ousar desconectá-los da virtualidade viciante. Quero o tempo de olhar pela janela, de ver o beija-flor, a queda folha caduca no outono, de desligar tudo o que for eletrônico e dormir em paz.

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Me joguei do trem!

Meu inferno astral entrou mostrando a que veio. O tombo foi feio e o estrago, grande. Hoje faz um mês, embora pareça que ele tenha completado na quinta-feira da semana passada. Sim, a pessoa cai feito jaca madura quando perde o equilíbrio. Perdi ao saltar do trem na gare,durante a Feira do Peixe enquanto buscava camarões para levar a pequena cidade de Rosário, no interior gaúcho, onde a família estaria reunida durante o feriado de Páscoa. Numa fração de segundos o joelho esquerdo não resistiu ao impacto e me jogou no chão. E descobri que alguma cadeia de células te faz ver, literalmente,o que acontece internamente. Algo como ter a visão da máquina de ressonância instantaneamente. Vi os ossos do joelho e os ligamentos deslocarem, fazerem a torção que foi também até o quadril. Fiquei ali, estirada, agarrando o joelho  e tentando não berrar. Impossível levantar, impossível pisar, impossível ser educada com o guarda a insistir para  que eu o acompanhasse até a sala da gare para um copo d'água. Não dava. E ele parecia estar mais interessado em cumprir seu papel do que em verificar como eu estava. Um gentil senhor de quem não lembro o rosto, apenas da camiseta azul, e o meu sobrinho Raul me ergueram e carregaram até o carro. Penso que não quis registrar o rosto dele como um mecanismo de defesa para não lembrar do vexame público. Posso não recordar, mas certamente todos os que viram não esquecerão. Resultado da brincadeira: uma fíbula fissurada, ligamentos e tendões distendidos pela torção e um repouso forçado. Perna imobilizada e sem poder tocar o chão por dois meses - um já foi - na tentativa de evitar cirurgia, e mais dois com muletas. Licença do trabalho e, como celetista, vou virar "encostada"no INSS como diz a Dó. Dia 08 tem perícia. Ou seja, vou mergulhar nos meandros da legislação trabalhista. E a empregada a tentar me distrair com bordadinhos indianos...mereço mesmo me jogar do trem!

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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Bela...bela!! Angelina Jordan.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Dia de Denis

Hoje tem divina de aniversário.
Ela lá, eu cá, outras divinas espalhadas por aí...
Quisera uma vassoura, um teletransporte,  um jatinho particular,
um instante na memória,
um abraço,
um afago, 
um carinho!
Feliz aniversário, Denis!! 

O bolo foi a Dó quem fez e manda dizer que tem que ser assim...chafurdar no chocolate com tudo a que se tem direito! Uia!!!


sábado, 27 de setembro de 2014

VIAGEM RIO

Um ano.  Se tudo fosse pouco, voltaríamos com as bênçãos de São Cosme e Damião e com o tempero de Lady Neide. Mas foi transbordante. De Letícia.
Há algo de misterioso nela. De grandioso, tudo.
Fomos cinco o tempo todo encantadas. Apaixonadas. Cuidadas, amadas, alimentadas de comida, de cultura, de flores, cheiros, dengos e dendê. 
Vinho. Muito vinho. Cerveja. Champagne. Monte de gargalhadas e gritos. Um especial. O frio na espinha gelando a meia dúzia de mulheres salvas sabe-se lá como.
Era pra ser um café da manhã. Foi um final de semana pra sempre.
Sei que fui puxada. Imantada. Abençoada!
Hoje, mais de 6000 mensagens trocadas com a retranca "Viagem Rio",   sou uma pessoa pouquinho melhor por causa de vocês.  Amo. Paixão.
Tia Let,  você é foda!

     


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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Para além dos egos e das candidaturas

Concordo com a Denis, ainda que por motivos distintos. Sim, esta campanha deixa qualquer um deprê. O modelo de fazer propaganda política faliu. Horário eleitoral no rádio e na televisão é cenário da barbaridade que assola as ideias dos políticos. A gente nunca sabe se o cara é ingênuo ou malandro, ou ainda, corajoso em se lançar numa empreitada quando se é pouco ou nada conhecido, muito menos se tem condições de mostrar ou mesmo de ter propostas.
 Pode ser o caso de uma dada candidata, mulher de um determinado prefeito, que do nada, se lançou candidata a deputada estadual. Nunca teve envolvimento partidário e trabalho para além de ser mulher de político. Não tem eleitorado sequer para ser vereadora.
Incompreensível? Nem tanto! As notícias correm e, conta a lenda,  que ela quer mesmo é ocupar um dado cargo em Brasília para o qual a exigência para quem assumir é a de ter em seu currículo uma candidatura em pleito ou um mandato exercido.
Cansa...como também cansa o mimimi em torno dos candidatos quando ninguém discute a plataforma. Aliás, qual é mesmo a plataforma? Qual o programa? 
Discursos vão e vem...  e atribuem à nós a responsabilidade pelas ações de quem é eleito. Como assim, cara pálida? Nem vivendo 30 anos ao lado de uma pessoa a gente pode dizer que a conhece realmente, e tem que responder pelas atitudes de um candidato que aparece a cada dois ou quatro anos?!
Desse enfado diante da política nacional, apenas uma coisa atrai a minha atenção: saber o que as pessoas comuns, réles mortais assim como eu, estão pensando.
Hoje na BR287, estrada entre Vera Cruz e Candelária, paramos numa loja muito agradável que mais parece aqueles antigos armazéns onde se encontrava  qualquer produto. Há décadas lá se vende de tudo - de móveis à bananas, incluindo roupas de todos os tipos, gêneros e preços, um pequeno açougue ao lado da mini-padaria e de uma recente lancheria. É atendida pela família de origem alemã - uma vovó tomava chimarrão enquanto a filha, uma senhora, costurava -,  uma auxiliar que se divide entre fazer o café na lancheria e atender aos clientes, e o pessoal que faz o pão.
A dona,cautelosa mas não menos curiosa em falar sobre política, tenta saber em quem votaremos. Indaga muito, mas não se posiciona. Quando digo em quem vou votar, descubro que ela não gosta do FHC. "Ele parece que vivia com aquela faixa de presidente. Era nariz para cima." FHC era elite, pensei. Naquele contexto de pequenos agricultores de quem cresce trabalhando, ou na lavoura de fumo que cerca a região ou no comércio, não há espaço para representação de intelectuais e sim para quem " mete a mão na massa". 
Ela continua falando e acrescenta um dado, no mínimo interessante para quem desconhece o ritmo de quem trabalha com comércio: " o pessoal reclama dos impostos, mas eles são os mesmos desde o governo do FHC. A gente continua pagando a mesma coisa que pagava antes. A diferença agora, é que os pobres recebem mais. Pelo menos tem divisão." 

Paguei a conta com cheque depois de esperar a linha do telefone cair várias vezes e cancelar o cartão. Fui embora com a certeza de que para além do saco de gatos que virou a política nacional, alguém pensa a partir das demandas do dia-a-dia. Levei dois vestidinhos de 20 e poucos reais e liguei encomendando galinha caipira de quem  vive das pequenas produções.

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domingo, 14 de setembro de 2014

Aécio, Dilma e Marina. O ego, a presidência e as galinhas.



Essa campanha política me deixa deprê.
Gosto de política desde sempre. Nasci em Santos e sou geração pré 64. Para os iniciados basta.  Parentes, vizinhos, professores, amigos, todos vítimas da ditadura. Faculdade fervendo.  No começo dos anos 80 lembro como hoje a primeira vez que vi no estúdio da TV Aratu, para o mesmo Bom Dia Bahia, Manoel Castro, prefeito e Loreta Valadares, a comunista.  Do lado de Manoel Castro o Tenente Mendes todo cheio de cordinhas amarelas no uniforme (eu conhecia o Tenente do carnaval de Rua de Salvador – ficávamos na mesma turma com Saldanha - em frente ao pé de mulher). E verbalizei alto: “Isso é democracia”.  E todos rimos, felizes.  Gente educada! Civilizada!  Era tempo do excelente Jornal do Brasil – leitura diária obrigatória e deliciosa.  Eu quero votar pra Presidente demora um pouco mais. Tancredo morre.  Instala-se a Constituinte.  Eleição direta em 89.  Todos os candidatos passaram pelo estúdio da TV Aratu.  Ou no Bom Dia ou no Opinião ou nos dois.  Grandes e excelentes jornalistas como entrevistadores.  Eu só mediava...  Foi um período excepcionalmente bom.  Onde outro Ulisses, outro Mario Covas?  Cadê  um Afif com “juntos chegaremos lá” e aquele bizarro gesto com as mãos?   Lula! Lula, no Bom Dia, viu um TP pela primeira vez...  “e eu pensava que eles decoravam aquilo tudo...”    Teve Collor.  Sabemos.  Mas foi uma bela campanha!  Foi A campanha.
E agora.
Nós, seres humanos, estamos cada vez mais insuportáveis.  Com egos que não entram nos carros (creio que é por isso que cada vez mais os carros estão maiores, mais altos, mais potentes e mais caros).  “Não há porque eu não fazer o que quero. Quem manda em mim?  Eu sou assim e pronto!  Quem quiser gostar é assim” – ouvimos toda hora.   As frases de efeito, de auto-ajuda, trazem embutido esse conceito de primeiro eu.  Textos tipo “eu já estou na idade de não me incomodar mais com o que os outros pensam” demonstram no nosso dia a dia o “cagando e andando” tão gostoso com duas pedras de gelo. 
Quem não roda nessa freqüência vira Geni.  Seja voluntário no Instituto de Cegos ou protetor de animais.  Seja quem devolve o troco recebido a mais ou o doente que não quer furar a fila do transplante.  O bom, honesto, ético, é sinônimo de babaca.  O malandro, falso, ladrão, é sinônimo de inteligente.  E não há coluna do meio.  Ou você sai para o acostamento quando a estrada está congestionada ou é o trouxa preso no engarrafamento.   E já acostumamos.  Já incorporamos esses conceitos.       
Aí, começa uma campanha política para Presidência da República.  Não podia dar boa coisa.
Gente da mais alta qualidade quer por o seu candidato no Palácio do Planalto. E tudo ia de acordo com o esperado pelas cabeças mais brilhantes do País. Mas... o imponderável  bateu.    
E mais do que num “salve-se quem puder” estamos diante de um “você que se foda”.  Aqui se fala muito um provérbio perfeito pra definir essa ganância: “farinha pouca meu pirão primeiro”.   O provérbio é melhor do que a realidade porque depois do primeiro tem o segundo, o terceiro talvez.  Mas nesse mundo do poder não. É tudo meu.  Nada pra você.  Seja o pirão pouco ou muito EU QUERO TUDO.  Nem que tenha que te cortar as mãos pra vc não comer!   
Os especialistas no assunto gostam de dizer “faz parte do jogo político”.
Tô até aqui desse jogo! Política não é um jogo. É um trabalho. Uma opção. Um dever que deveria ser encarado como uma honra!  E deveria haver concurso pra político!  Na democracia o político é um representante. Funcionário público pago por quem o elegeu.   
E milhões, MILHÕES de brasileiros vão eleger a criatura que vai ocupar o Palácio do Planalto.
Que jogue milho para as galinhas. E se as galinhas não forem tão egoístas como nós, seres humanos, podem deixar sobrar uns milhozinhos pelo chão...



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A chic é Rosana
Não usa pretinho
pra não dar pinta





Denis
coluna tranqüila
e coração ereto






Tássia
pin up e lambe-lambe
Lambe cria






Dorotéia
só escreve em italic







Paula Bolzan






Nívea Bona
Marca compasso
Vem pro abraço






Marina Victal
Mineira apresenta armas
Espada em punho








Melhores de 2008
Em 2009 eu vou...
Melhores de 2009
Em 2010 eu vou...
Melhores de 2010
Em 2011 eu vou...
Melhores de 2011
Em 2012 eu vou...
Melhores de 2012
Em 2013 eu vou...
Enviado Divino
Meu Primeiro Professor









    I Clichê


    II Clichê


    III Clichê


    IV Clichê


    V Clichê


    VI Clichê




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