ÁFRICA da TÁSSIA
O vôo Rio-Luanda é feito em um boeging 777 de dois andares, construído na década de 80, barulhento e desconfortável. A escada que leva ao segundo andar parece com a do ferry-boat que atravessa a Baía de Todos os Santos. O comandante e os outros pilotos se vestem com um traje muito parecido com o uniforme da marinha brasileira.
Às aeromoças dedico mais de um parágrafo porque elas merecem. Esqueça aquele padrão cool, sex and slin, objeto de cobiça dos homens mundo afora. Nem acredite na foto do site TAAG. Nada de sorrisos de boas-vindas tampouco palavras cordiais.
O traje é .. esquisito. Um tailler roxo e laranja, bem estampado, acompanhado de uma maquiagem berrante, sem combinação alguma, e unhas enormes naturais, eu juro. As mais novas andam de salto quadrado, as mais velhas de sapatilha. A relação aeromoça-passageiro é algo tão conturbado que as moças passaram a ser chamadas de aerokotas pelos brasileiros que vivem na ponte Brasil-Angola. Kota, em kibundo, significa 'pessoa mais velha'.
Se tem uma coisa que nunca vou esquecer na vida foi minha vinda à África.
Antes de apertar o cinto, constatei que tinha sido premiada com uma poltrona quebrada. Sou supersticiosa e logo achei que não era um bom sinal. A maçaneta estava travada e o encosto não reclinava. Pedi ajuda ao desconhecido sentado ao lado. O rapaz se esforçou em vão. Imediatamente cheguei a conclusão que seria uma tragédia encarar um vôo internacional, sete horas de duração, com a coluna a 90 graus.
Tentei chamar uma aeromoça para comunicar o problema. Precisava trocar de lugar. Tinha tanta poltrona naquele avião... era impossível não sobrar aluma. Estiquei o pescoço pra frente, pra trás, pros lados e nada. Não vi nem o rastro das aeromoças. Comecei a ficar apreensiva e quando me dei conta, atrás de mim o problema era maior: tinha uma goteira acertando em cheio a testa de um engenheiro da Odebrecht. Dei um sorrisinho escroto para o rapaz.
Antes de ser desconfortável a situação era engraçada.
Não era uma goteira tranquila, daquela que pinga duas vezes e depois cessa. Era uma goteira agreste de pingo rápido e veloz, o suficiente pra deixar qualquer passageiro furioso.
Com uma calma de me meter inveja, o rapaz chama a aeromoça. Não era necessário dizer uma única palavra. O problema estava claro e evidente para todos. A moça imediatamente dá meia-volta, entra na cozinha e volta com um guardanapo de papel nas mãos. Com uma cara de Mana Zita*, enfia o guardanapo no buraco do ar-condicionado.
Em menos de um minuto, despenca guardanapo e mais um monte de água na cabeça do rapaz.
O passageiro exige indignado uma solução.Todos ao redor olham e parecem estar em total acordo com o rapaz. Pareciam veteranos.
Talvez eu fosse a única passageira de primeira viagem.
Sem dizer uma única palavra, a aeromoça dá meia-volta, mais uma vez, se enfia na cozinha, volta com um saco plástico daqueles de Paes Mendonça nas mãos e sugere que o passageiro proteja a cabeça porque não há outro assento disponível.
Vexame no avião.
O passageiro levanta cuspindo fogo pelas fuças. Dispara ofensas à aeromoça.
Diz que não aguenta mais o serviço de bordo da TAAG e que só viaja naquela porcaria porque é a única linha direta disponível do Brasil até Angola.
Sem se abalar um único segundo, a aeromoça responde:
- "Já que o senhor está muito incomodado, aproveita que a aeronave ainda não decolou, desce e vai no próximo vôo".
Fez um silêncio abissal no avião. Eu fiquei perplexa.
Nunca vou esquecer da cena ao vê-lo horas depois, desembarcando no aeroporto 4 de fevereiro com a camisa de botão da Elle et Luit completamente enxarcada.
;Marcadores: África da Tássia, Tássia Novaes



3 Comentários:
denis rivera disse...
Menina! O máximo! Nem de Aeroflot ...
30.6.08
Carminha disse...
Vem cá! Esse moço da Odebrecht é quem? Ele deveria ganhar um prêmio ...
30.6.08
Melina Zucolo Guterres disse...
Tassinha!!
mto bom!!!
te prepara para a volta! hhehe
bjsss
30.6.08
Tássia Novaes disse...
geeente, amélia sempre demais da conta. olha lá as janelinhas embaixo e em cima, rsssss. Tá vendo aquela figura do bicho preto no rabo do avião?
é a palanca negra, um animal do chifre enorme típico daqui de angola...das savanas... simbolo do país...simbolo do futebol local...registrado também nos souvenirs
30.6.08
denis rivera disse...
È igualzinho a um avião da Panam que eu voei. ... SIC ... Mas fui de primeira classe me entupindo de champanhe francês!!!
30.6.08
amélia disse...
Dona Tássia, seu último texto está no "rascunho". Acho que veio faltando parte da sua Segunda Parte. E obrigada pelo elogio. Nem mereço ...
30.6.08
Tássia Novaes disse...
foi mal amélia, agora tá inteiro. vai lá, é todo seu!
30.6.08
Tássia Novaes disse...
ahahahhaha, vc é metida Denis Rivera! =)
Dona Tássia ... fui tirar o post do local original mas não consegui passar os comentários um por um. Ficou assim tudo num só. Vai desculpando aí. Não se pode elogiar ...
Naaaaaassa!!! E eu que pensei que não poderia haver nada pior que a LAP-Lines Aereas Paraguaias (ou Perigosas, se preferirem) pela qual voei em 1982. Isso aí é muito pior. Surreal.
E estamos em 2008.Cacete! Imagina no Zimbabue...
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