Marina passou uns meses fora de casa, viajando a trabalho. Foi por vontade própria. Decidiu que seria uma ótima oportunidade para amadurecer a condição de recém-divorciada. Acostumada a dividir espaços com marido, mãe, irmão, gatos-quase-filhos e um punhado de amigos, aprendeu que também é importante ficar sozinha. Obrigatoriamente, passou a cuidar mais de si. E funcionou... Voltou diferente, abastecida, mais bonita, mais mulher e cheia de ânimo. Me contou que ganhou quilos. Bobagem... o mais visível é que ela ganhou vida. Em casa, ao retornar, encontrou afagos. Foi bem acolhida. Matou a saudade... família é família. Nosso ninho. Recebeu e deu carinho, reencontrou a infância e teve certeza que já não cabia mais na versão menina. Reencontrou o ex e teve certeza que já não se pertenciam mais. Marina virou mulher. E atrevida.
Acalmado o afã das emoções - muitas delas impulsionadas pelo retorno, ela começou a colher verdades. A primeira, é que tudo passa. A segunda, é que o tempo cura e a dor fortalece. E a terceira, um pouco mais cruel que as anteriores, é que as pessoas mudam constantemente, embora nem sempre pra melhor. Marina entristeceu ao perceber sua mãe, a leoa da casa, emocionalmente fragilizada. E pior: descontando no filho de forma irracional. Pra facilitar a compreensão dos leitores: transformou o filho homem em "marido" a ponto de interferir diretamente no namoro do rapaz, como bem descreveu Marina.
Decidi escrever um pouco sobre o assunto porque tenho visto acontecer de forma repetitiva ao meu redor. Amadeu namorava Maria Lucia. Um belo dia, dada a harmonia da relação, Amadeu decidiu se casar. Com Maria Lucia, evidente. Não sabiam eles a bomba que encontrariam pela frente. Nunca um anúncio de matrimônio foi tão cortante. Soou como legítima ameaça aos instintos da mãe. Dele. Que logo se encarregou em desatar a união com unhas e dentes. Convenceu Amadeu que ele precisava, antes de tudo, de um tempo. Blefe infame.
Assim como a mãe de Marina, a mãe de Amadeu é felina. Ambas escolheram contrariar a vida, quando ela se mostrou impiedosa. Driblaram com maestria e coragem incomparável casamentos tortuosos, não deram chance a doenças ameaçadoras tampouco a padrões sociais. Foram pai e mãe. Grandes amigas dos filhos. Abandoram sonhos, mimos, erotismo, e se lançaram exclusivamente na conquista do bem-estar e conforto deles, os filhos. São provedoras, sábias e acolhedoras. São inteligentes e sensíveis. Graças a exemplar força de vontade, chegaram à maturidade vitoriosas, missão cumprida [os filhos se tornaram adultos super bem criados], porém com um grande peso na intimidade da alma: deixaram de ser mulher para serem, acima de tudo, mãe.
Aí, quando elas escolhem descansar, vem de lá uma gatinha, bonitinha, habilidosa e crau! Abocanha o filhote delas de forma arrebatadora. Ora, no reino animal, só podia dar em briga. Claro que a situação não é assim tão às claras como descrevo deste texto. O processo flui no âmbito do subjetivo. O que fica evidente, na real, é o desequilibrio. Em todas as partes. A leoa fica histérica, o filhote idem. Ele tem dificuldade em romper o cordão umbilical, permite. Ela tem dificuldade em compreender que não está sendo deixada para trás. Ela passa a ligar 15 vezes por dia pro filho. Já não cuida da própria vida. Ou melhor, a própria vida se resume ao filho. A noiva fica histérica e toma pavor da futura sogra. O filho pisa em ovos e se sente responsável/culpado pela felicidade da mãe [cruzes!]. A noiva se revolta e vira felina também. A insensatez da situação é visceral. Sobra pra quem não é da família...
Jung define bem: “O relacionamento mãe-filho é certamente o mais profundo e mais marcante que conhecemos... é a experiência absoluta de nossa espécie, uma verdade orgânica". Ok, psicólogos do século. É hora de botar um pouco de razão e elegância nesse caos puramente emocional. Tenho pra mim que o antídoto para qualquer tipo de desequilíbrio é o perdão e o amor. A mãe-leoa se afoba porque tem medo de perder "o maior bem de sua vida", como se fosse possível comparar amor de filho com amor de marido. Mãe é mãe e esposa é esposa. Todos tendem a viver melhor se se limitarem a seguir estritamente seus papéis designados pela vida na cadeia evolutiva familiar, sem querer ser mais do que podem ser. Esposa não é mãe e marido não é filho. Se o desequilibrio parte da sogra, cabe a noiva neutralizá-lo e cabe ao filho amá-las com distinção. Se todos se amarem, se o bom senso predominar, é grande a chance de todos serem felizes para sempre. Principalmente, quando os netos chegarem.
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