DAY AFTER
Vamos nos encontrar pra colocar o papo em dia. Fim de tarde.
Tá. Amanhã. Depois. Mas o amigo é O amigo e gênero é gênero. Começo a briga pela roupa. A calça preta nojenta é nojenta. Nem pensar... Tem uma saia meio longa meio longuete [ainda existe essa palavra?] de elástico na cintura que serve. E uma velha e sempre renovada batona preta. No mais, uma boa maquiagem do tipo acordei assim e naturalmente nada comprometedora.
A hora vai passando e o fim de tarde vira jantar. Ok.
Restaurante marcado checo a internet. Jantar na varanda R$ 314,00. Não é possível... minha vida financeira não está tão defasada assim... jantei tantas vezes com as amigas naquele restaurante... jantar no ambiente climatizado R$ 280,00. Pela barba de Jaques Wagner! Isso não é possível! Me sinto muito mal. Defasada não define nada e eu não deveria ter visto os preços.
Sei que o moço é “bem de vida”, bem nascido, bem vivido, empresário poderoso e eu... bom, decido que é melhor não ser lá muito franca com ele no papo esquecido há pelo menos uma década.
Ele já está sentado quando chego e logo se levanta com uma cara super feliz. Vem com um abração. Hummm... no abração já deu... Não seria só um papo em dia. O jantar teria um preço. Mas que preço poderia pagar a gordalouca? Então... nem se animem muito porque o preço foi baratinho mesmo. Só uns “ bejo na boca” no estacionamento super movimentado e o carimbo: “Vamos repetir!“
Ele não quer repetir. Ele quer me comer [a bata não deixou ele ver o tamanho da minha barriga].
Mas também pode ser que ele não queira nada.
______________
Dia seguinte nem e-mail, nem torpedo, nem telefonema. Quiçá um buque de flores... [Alice continua dormindo].
Então por quê? Porque os homens – mesmo os inteligentes – não mudam esse texto final?
Depois de rever todas aquelas respostas que sabemos [ele quer ser gentil, ele não quer mais nada e não quer dizer, ele não tem coragem de dizer etc.. etc.. etc..] me pego pensando num motivo que nunca tinha me passado pela cabeça: pode ser a forma que eles usam pra não aceitar a mulher que somos.
Nenhuma de nós se importaria se depois do beijo no estacionamento eles dissessem “tchau”.
E nenhuma de nós se assustaria ou se ofenderia se antes do beijo no estacionamento eles dissessem: “vamos pra um lugar mais confortável, uma cama talvez?”
Penso que - pra eles - o problema não é o que eles dizem.
O problema é o que nós podemos dizer.
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No meu caso, se a proposta fosse a cama, eu poderia dizer alguma coisa como: "não fófi, não dá! Tô de calçola com elástico vencido, a barriga tá dobrando e apóia na coxa e não me depilo faz uns 19 meses". Marcadores: Gordalouca



6 Comentários:
Lembrei de um texto do Kundera em que os amantes se encontram depois de anos e, no quarto, pedem a penumbra para não quebrar a magia diante da realidade. Acho que era risíveis amores...
Mas óh... se sua barriga caiu, o saco dele também!!!
Cena que se repete em "O amor nos tempos do Cólera" ...
:)) YES!!!
after day two! E agora? Deu o ar da graça?
A questã se repete sempre e é simples de se resolver (tenho planejado isso e nunca consigo fazer, esqueço). Está na hora de respondermos "não, não temos que continuar esse papo." Eu queria ver a cara do moço caso falássemos isso...
E adorei a do saco caído. No fundo somos muito mais cruéis conosco do que com os outros.
Ahá D. Bona! É isso mesmo! Problema é saber a hora de dizer...
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