Cuia, erva e outras iguarias mais...
Dentro do armário da minha cozinha, em meio às xícaras tem uma cuia de chimarrão. Foi presente do pai da Pró. O velho Zucolo é simpatia divina, animadíssimo, me levou às compras em Rivera (Uruguai) debaixo do maior toró. Quando abri os olhos de manhã, no dia da viagem, o céu completamente cinza, prestes a despencar pingos fortíssimos, com direito a raios cortantes, pude jurar que ele, o senhor da família, não colocaria o pé pra fora de casa. Oxe, que engano. Foi o primeiro a acordar e se apresentar com traje e ânimo impecáveis. Sentado ao lado da lareira, alternava goles de mate com comentários a moda italiana sobre o noticiário da manhã. Só estava aguardando a gente se aprontar. E fomos: eu, a Pró, o irmão gato da Pró e o pai da Pró. Um ótimo passeio. Minha primeira parillada em solo uruguaio.
São muitos os gaúchos em minha vida. Eles aparecem assim, de repente, do "além", como quem não quer nada e... chegam pra ficar. Segundo uma amiga, a história é digna de contabilidade. Nos meus 26 anos de existência, são 4 idas ao Rio Grande do Sul, 3 romances, 1 affair, 1 mãe postiça (com família incluida), 1 sogra galega, 1 cunhado distante, uns 5 ou 6 amigos, uns 10 conhecidos e um punhado de episódios marcantes. Duvido que exista outra baiana capaz de apresentar números tão relevantes. Quem se atreve?
Os romances eu catei aqui mesmo, em Salvador. Sem marcar, sem programar, sem prever. Confesso que a repetição me causa espanto. O primeiro, ok. No segundo, entrei em crise. Consolidado o término conturbado, com direito a enredo de novela das 8, jurei para todos os santos que jamais repetiria a dose. Outro gaúcho não, não e não. Com tantos rapazes nessa cidade, não era possível que eu teria que empacar justamente em Santa Maria! E foram três longos meses de reparos emocionais embalados por uma vida social praticamente nula. Meio sem ânimo, me dediquei exclusivamente ao trabalho, aos livros e a todas iguarias do conforto doméstico. Até que passado o banzo, resolvi por o pé na rua. Quer dizer, nem precisei botar o pé na rua. Aceitei um convite para uma festa e um amigo disse: - vou te buscar. E o danado veio! Acompanhado... Trouxe a tiracolo um moço simpático que semanas depois ganhou o título de meu bem, amor da minha vida. Que é o que, gente? GAÚCHO. De onde, gente? De Santa Maria! Quer dizer, mais propriamente da fronteira, mas morou anoooos em Santa Maria.
É demais, não é não?
Aquela noite eu quase caí pra trás. Quando entrei no carro e o rapaz, até então completamente desconhecido, me cumprimentou com um faceiro "Boa noiTÊ", completamente denunciante a procedência do sotaque, me veio um pavor súbido petrificando todas as vértebras da minha coluna. A mim me restou um mal educado "Você é gaúcho de onde, meu filho?". Pronto. O suficiente para me atirar da janela do carro. Inventar uma dor de barriga ou qualquer outro mal súbito. Como não tinha muita saída, a opção foi ignorá-lo. E ele, ao contrário, foi cortez, me tirou até pra dançar e eu insisti: Não, obrigada. Adiantou? Não. Algumas noites depois, estava firmado um belo romance.
Na faculdade, foram quatro anos ao lado de vários deles. Da redação de A Tarde, herdei uma amiga querida de Pelotas, Didi, irmã de signo e de gênio. Na sétima série, fui por conta própria ao CTG da Boca do Rio pegar uma roupa de prenda emprestada pra desfilar na Feira das Nações do colégio. No ano seguinte, meus pais escolheram a Serra Gaúcha como destino do passeio em família em pleno inverno. Depois que conheci a Pró, fui a Santa Maria duas vezes. Eu AMO carreteiro, especialmente o de Clóvis (tem dia que bate uma vontade da porra!). Mês passado conheci um engenheiro de POA, na praia, com coincidências quase inacreditáveis. Recentemente, minha mãe lembrou que, quando eu tinha uns 5 anos, ela sonhou que um casal de gaúchos me raptava numa canoa. Diz ela que nunca esqueceu desse sonho.
Voltando ao armário da cozinha, na prateleira dos pacotes de feijão, arroz, açúcar, ao lado do vidro de dendê tem um pacote de erva. Meio mofada, diga-se. Mas fica ali, por tradição. Funciona como uma espécie de amuleto. Pra atrair fartura e semear a união.
Marcadores: Tássia Novaes




6 Comentários:
Show de sincronia!!! Mas... Amor pra cá... Meu bem pra lá... e nos finalmente os homens são macho mesmo?
Porque cabra bom né fácil não... Se bem que ainda espero meu Dunga!
Mulher, vc acredita em outras vidas? Vai que seu problema/virtude é carmático? Nunca se sabe, né? Saborosíssimo seu texto!!!
Tassinha! O casal do sonho eu reconheço! hehehe
Acho que tu é gaúcha e não sabe. hehee
bjoooo
Melina
Erva-mate na Bahia, a gente guarda na geladeira!!!! Ôxe minina, não lhe ensinei isso não?
Falha nossa!
Tássia, bota precisão nisso. O pai é tal qual, os teus amores tb.rsrsrs
Concordo com a Nívea. Isto tem a ver com vidas passadas!
E aviso que a minha mãe vai morrer de ciúme, e a namorada/mulher do irm]ão gato nem vai ler pq certamente teria uma crise e te odiaria sem te conhecer( faca na bota!) rsrsrs
beijo
Adorei o texto e fico com a tese de que esta história de namoro começou em outros tempos, quem sabe já foste alguma estancieira??
Compra outra erva-mate e joga fora a q mofou, a fila anda...bj
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