terça-feira, 12 de maio de 2009

Recordações de África

"Se um morto for sepultado dentro de um baobá, sua alma irá viver enquanto a planta existir" Crença africana
Revirando uns arquivos, encontrei uma pasta perdida com fotos da temporada em Angola. Tudo permance muito aceso - estranho seria o oposto, dado o pouco tempo da ida e retorno. Das coisas ricas que por lá aprendi certamente meu encontro com o imbudeiro - ou baobá - está escrito como um capítulo especial na história da minha vida. Símbolo de resistência, a árvore serve de inspiração aos angolanos. Faz parte da vida daquele povo, como se fosse um amuleto. E não poderia ser diferente. Talvez não exista palavra que mais se adeque a sofrida história daqueles que ali nasceram: resistência. Assim como o baobá, a Angola de folhas caducas resistiu a colônia portuguesa e agora resiste ao tempo. Do solo que brota petroleo e diamante, em áreas de planas estepes, onde tudo parece estar opaco, frágil, sem vida, o baobá deixa sua marca imponente. Árvore alta, robusta, carrega uma aura forte, como se pudesse dizer: - Sim, aqui existe vida. Vida longa - um baobá dura até seis mil anos. E mesmo que não exista nada ao redor, a árvore é capaz de armazenar dentro do tronco mais de 100 mil litros de água. Lembro a primeira vez que avistei um imbudeiro. Estava a caminho da praia de Santiago, a uns 70 km de Luanda, junto com uns colegas de trabalho e companheiros de casa. O lugar não tem infra-estrutura, absolutamente nada que proporcione um conforto mínimo ou apóio ao visitante. O caminho é difícil, mas indiscutivelmente vale pela atração: a beira-mar há um cemitério de navios. Isso mesmo. Um cemitério de navios completamente oxidado pelo tempo. Algo inacreditável, posso mostrá-los em outro post. No caminho, ainda na ida, nosso carro atolou na estrada de barro. Tinha chovido muito durante a semana e o sol que fez no domingo não foi suficiente para enxugar a terra. Descemos do carro para empurrá-lo e passado o transtorno, ao virar a curva, lá estava ele o gigante baobá frondoso compondo a paisagem africana. Ainda não sabia o nome. As raízes pareciam saltar da terra e mesmo distante pude perceber que ainda se fóssemos dez pessoas dentro do carro seria difícil alcançarmos juntos, em um abraço coletivo, o diâmetro daquele caule. Permaneci hipinotizada, olhar fixo em direção a árvore. Por longos segundos, vi uma amiga querida sentada ao pé da árvore. Dei um passo para chamá-la, mas fui despertada por meu colega que conduzia o carro - mais uma vez havia atolado. Olhei novamente para o baobá e a minha amiga não estava mais lá. Segui em direção ao carro, onde as outras pessoas faziam força para empurrá-lo, e conveci a mim mesma que a visão ou delírio - como preferirem chamar - deve ter ocorrido devido ao excessivo sol dos trópicos. Tinha levado apenas uma garrafa pequena de água, que foi consumida logo na primeira hora da viagem. Mais a frente apareceram outros imbudeiros. Fotografei todos que pude avistar e a partir de então passei a saudá-los com admiração. Um colega que estava no carro - no país há mais de sete meses - me apresentou a espécie e falou também a simbologia em relação com o povo de Angola. Dias depois, via internet, contei a minha amiga que a tinha visto debaixo da majestosa árvore. Mandei uma foto e, do outro lado do oceano, nos confis gelados do sul do Brasil, quase lhe soltam lágrimas aos olhos. Ela sonhava com aquela árvore a muito tempo, mas não sabia o nome. Impressionada, me pediu que trouxesse de África algumas sementes - no final das contas nunca as entreguei. Depois mandei fotos também para a minha mãe e ela me contou que o imbudeiro é o mesmo baobá cultuado aqui no Brasil pelo povo de santo, no candomblé. Na religião de matriz africana, baobá é planta sagrada: não pode ser arrancado ou sequer podado. Na volta ao Brasil, um dia percebi que a música Kaô, faixa 6 do cd O Sol de Oslo (Pau Brasil, 1998), de Gilberto Gil, é inspirada na árvore e dias depois fiquei admirada ao encontrá-la no clássico de O Pequeno Príncipe, de Saint-Euxpéry. Em uma das histórias mais vendidas no mundo contemporâneo, o principezinho teme que a árvore de "sementes terríveis" tome conta de todo o seu asteróide. Hoje, ao ver as fotos, desejei estar novamente perto de um baobá. Ainda que não seja fisicamente, fica valendo a viagem do pensamento impulsionado pela magia do registro fotográfico. Atravessei o oceano e pisei, mais uma vez, em solo angolano para que ali, no tronco da árvore, onde tudo parece resistir ao tempo, sejam mantidos os meus sentimentos. Daqui do Brasil, continuo a saudar os imbudeiros.baobás.

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4 Comentários:

Blogger Ari disse...

E o baobá vai ficar fedido pra caramba rsssss

13.5.09  
Anonymous Rosana disse...

Traz a semente que planto e prometo não enterrar ninguém ali!rs

13.5.09  
Blogger tássia disse...

Minha outra amiga quesabedetudo me contou ali na Federação, no caminho da TV Bahia, tem um baobá enorme bem no meio da rua, que virou uma praça.
Ela viu quando plantaram a árvore. Aquela arvorezinha que parecia mato. Mas cresceu e ela viu também. E ela disse que foi um belo presente ver "o sagrado" crescer todo dia ...

13.5.09  
Blogger Dorotéia disse...

Já te disse que isso tem que virar livro!

14.5.09  

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